Cheiro de corpo
“O doutor Selmo Copek não percebeu um fato meteórico e homérico, que viria estabelecer uma relação mágica entre o sargento de trânsito e ele. Uma concentrada nuvem, de um denso azul-aço, semelhante a uma dessas nuvens que envolviam Hera ou Palas em suas aparições para os combatentes troianos ou aqueus, surgiu turbilhonada, como se tivesse brotado de uma chispa de atmosfera olhizarca, da axila direita do guarda, atravessou os coloridíssimos mercadores, as esteiras verticais movidas por um ar rabugento, e se aninhou na axila esquerda do doutor Copek. A pele desse criollo dinamarquês apresentava variações e modalidades irrepetíveis. Um poro grande, abobado, de um rosado sem graça, endurecia-se chiando sob a penetração coriácea do nosso sol. As consequências antipáticas que sua curiosa modalidade epidérmica oferecia se mostravam num rosado plúmbeo que retrocedia diante do siena criollo, e era como se sua pele se gretasse com um ruído de urucuns friccionados. Quando aquela nuvem penetrou em sua axila, sentiu no corpo um peso novo, que começou a disfarçar com arlequinescos topetes de importância, mas depois essa nova gravitação o assaltou novamente, causando-lhe um cansaço atroz.” (Paradiso, José Lezama Lima)
