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Mostrando postagens de agosto, 2026

Mamar nuvens

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 Se a nossa era alcançou um poder de destruição insondável, devemos promover uma revolução que crie um poder de criação insondável — um poder que fortaleça memórias, aguce sonhos, materialize imagens, dispense aos mortos o tratamento mais nobre e conceda ao efêmero uma leitura suntuosa de sua própria transparência, permitindo assim aos vivos uma passagem segura e fluida por esse reino de sombras; uma revolução que destrua esse acúmulo não por meio de energia volatilizada pelo diabo, mas por um cometa que perfure o próprio núcleo do bulbo raquidiano — um transmissor que abrange o tátil e o invisível — para que, após sete dias de imersão, possa-se saciar a fome enquanto se segura uma espiga de trigo e se chupa uma estalactite estelar como se fosse um doce: um ato conhecido nos rituais dos antigos chineses como "sugar o céu". [do livro Oppiano Licario; citado em Notre Musique, de Godard]

Cheiro de corpo

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“O doutor Selmo Copek não percebeu um fato meteórico e homérico, que viria estabelecer uma relação mágica entre o sargento de trânsito e ele. Uma concentrada nuvem, de um denso azul-aço, semelhante a uma dessas nuvens que envolviam Hera ou Palas em suas aparições para os combatentes troianos ou aqueus, surgiu turbilhonada, como se tivesse brotado de uma chispa de atmosfera olhizarca, da axila direita do guarda, atravessou os coloridíssimos mercadores, as esteiras verticais movidas por um ar rabugento, e se aninhou na axila esquerda do doutor Copek. A pele desse criollo dinamarquês apresentava variações e modalidades irrepetíveis. Um poro grande, abobado, de um rosado sem graça, endurecia-se chiando sob a penetração coriácea do nosso sol. As consequências antipáticas que sua curiosa modalidade epidérmica oferecia se mostravam num rosado plúmbeo que retrocedia diante do siena criollo, e era como se sua pele se gretasse com um ruído de urucuns friccionados. Quando aquela nuvem penetrou em...

As víbices do menino José Cemí

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  Além do mais — continuou dizendo, — acho que o arquejo de seu peito, as cores que levanta, impedem que você se veja. Mas o seu é um mal de manchas que se espalham como borrões, como os borrados rubros do flamboyant. Como um pequeno círculo de algas que primeiro flutuassem por sua pele e depois penetrassem por seu corpo, de tal maneira que quando alguém abre sua roupa, pensa estar encontrando uma água muito espessa de sabão com capins de ninho. (in Paradiso, José Lezama Lima)